14 de Fevereiro de 2011

Foi em tempos de Mouros estas terras da Vila de Gavião...

Foi em tempos de Mouros esta freguesia e sede do concelho de Gavião!

Tempo aquele uma qualquer povoação ainda não existia em este sítio e paragens e a vida e esta a alma não se lhe conhecia e sabia.

Eram dois reis que a lenda e o conto assim a coisa lá lha reza e se lha diz.

Eram dois inimigos desde longa data e a coisa assim se a começa...

"Em frente dos seus exércitos marchavam e seguiam em veredas estreitas e muito apertadas. Era numa floresta cerrada de matagais. Era uma floresta onde viviam lobos, ursos, linces e outras feras.

A ânsia e a pressa e a sofreguidão a tinham. Procuravam apenas encontrar-se em campo próprio para combaterem entre si, mas sem o conseguirem até então.

Um dia.

Um dia um tanto como o outro, porém - sem o saberem - ordenaram aos seus batedores para treparem ao galho mais alto da árvore, de maior porte, e dessa elevada posição descortinaren um bom local para acamparem, os seus guerreiros estavam exaustos de tanto marchar e era necessário lhe temperar o corpo e lhe dar descanso.

A ordem cumprida, cumprida a ordem, avistaram os ditos vigias um monte que se elevava acima das copas das árvores mais altas da foresta e que lhes pareceu um lugar muito adequado, não só para o acampamento mas também para lhes servir de posto de observação.

Em face das informações dos seus vigias, os dois reis - sem saberem um do outro, repete-se - deram ordem às suas respectivas hostes para marcharem na direcção conviniente e a mais acertada.

Ao fim de algumas horas, ambos com os seus exércitos, atingiram o monte e iniciaram a sua ascenção. Um subiu e subia pelo lado nascente e o outro, o outro subia pela encosta poente.

Porém, qual não foi a surpresa, os dois reis e seus apaniguados, quando chegados ao cimo do monte se encontraram frente a frente!

Em vez do desejado descanso por que ansiavam, eis que os deuses - era no tempo do paganismo - os haviam para ali guiado para a batalha decesiva! Chegara, finalmente, o momento em que os deuses da guerra iam decidir a posse daquele imenso território que disputavam!

A coisa e tudo logo lá ao rebuliço, ordenaram-se as respectivas hostes para o grande combate, tanto mais que o planalto tinha uma área bastante espaçosa, tornava aquele lugar a arena ideal para resolver o litígio que opunha os dois inimigos e logo os reis deram ordem de, e para o ataque.

Já passava do meio dia, quando sob o sol ardente do estio, as vanguardas inimigas se chocaram com terrível ímpeto; os choques selváticos de lanças, couraças e escudos, os sons estridentes ou cavos de centenas de trombetas de guerra, os gritos de incitamento e matança acompanhados por cânticos guerreiros entoados por milhares de gargantas ... em um grandioso e trágico espectáculo ! a uma vaga de combatentes caídos, sucedia-se outra, outra e outra.

Aos gritos de incitamento iniciais dos chefes, sucediam-se agora os não menos horríveis gemidos e clamores de dor de feridos e moribundos que, de parte a parte, cobriam o solo do planalto.

A grande batalha só terminou antes do pôr do sol, não houve sobreviventes, desde o menor dos guerreiros aos próprios reis, todos ali pareceram, todos ali ficaram para sempre.

Ao crepúsculo, rapidamente se seguiu a noite, com imenso manto negro se estendeu aquele monte transformado em gigantesco ataúde onde jaziam milhares de cadáveres insepultos.

Ao romper da alva, viram-se surgir de todos os quadrantes do céu, bandos de milhares de aves de rapina atroando os ares com o côro lúgebre do seu crocitar que se fazia ouvir a grande distância.

Era como uma chamada geral a todas as aves da espécie para participarem no macabro banquete que as aguardava no cimo do planalto.

Entretanto - meus amigos - muito longe dali, nas aldeias dos reinos que haviam ficado sem chefes e sem guerreiros, os velhos, as mulheres e as crianças , prescrutavam ansiosamente os céus, atraídos pela passagem de tantas aves carniceiras que convergiam para um monte que quase se sumia na lonjura do horizonte.

Sabiam, agora, que a terrível batalha se travara, mas desconheciam o resultado e temiam pela sorte dos seus entes queridos, muitos dias e noites antes viram partir, a entoar alegres e entusiásticos cânticos de vitória...

Muitos outros dias e noites ainda se sucederam... mas nenhum dos guerreiros jamais regressou à sua amada pátria e doce lar. As aves carniceiras, porém, essas continuavam a voar para o monte longinquo e sobre ele pairavam muito tempo. O infausto e terrível acontecimento de tal maneira ficou na memória desses antiquíssimos povos que, a partir dessa época, o planalto que servia de arena e de tumba à multidão de combatentes, ficou conhecido pelo topónimo do monte de muito Gavião.

- Naquelas longínquas casas, Gavião chamava-se Freixinho, e era, com os seus arrabaldes, uma cidade importante, tão importante que ali viviam os procuradores dos grandes reis de então.Um dia, porém, vieram grandes exércitos de mouros comandados por muitos reis e arrasaram totalmente a cidade, queimaram os templos e massacraram grande parte dos seus habitantes. Alguns conseguiram fugir para longe, mas não puderam carregar com os seus dinheiros e jóias.

Um dos reis mouros que ficou como governador, na ânsia de encontrar tesouros escondidos, mandou arrasar todas as habitações até aos alicerces e forçou os sobreviventes a habitar as terras baixas e os velhos para mais fácilmente serem subjugados. Aqui, no cimo do cabeço, construía o rei mouro o seu castelo, donde tudo vigiava. Os seus impostos, exigências e extorsões de todo o género, acompanhados, não de violências físicas eram tais, que as pobres vítimas das suas rapinas o alcunharam de "mouro Gavião".A tradição não conservou o nome desse governador cruel, mas, em contra-partida, guardou-lhe a alcunha, pois mais tarde quando foram expulsos os mouros, o mesmo "Gavião" subsistiu no actual topónimo. É caso para dizer-se: foi-se o mouro... Ficou o Gavião.

- Há muitos anos, nestes sítios habitava um poderoso governador mouro, possuía uma formossísima filha muito prendada e frutuosa.. Viviam num castelo, no alto de um escarpado cabeço. A fama da beleza e qualidades da donzela, chegara a países longuínquos e um príncipe cristão empreendeu uma longa viagem desde a sua pátria no intuito de conhecê-la e talvez pedi~la em casamento.

Ápos muitos dias de jornada e já perto do castelo onde vivia o velho governador mouro e a sua formosa filha, encontrou um mouro que abatia uma árvore. Como estava cansado, estava cansado e com fome, pediu ao mouro que o deixasse passar aquela noite - esta avizinhava-se - na sua cabana que ficava ali próximo. O mouro acedeu de boa vontade, admirando-se que uma pessoa de tão gentil presença, vestida com aqueles ricos adornos e com tão formoso corcel lhe pedisse agasalho. Ofereceu-lhe, como ceia, um grande pão de centeio, um jarro de leite, figos e mel.

No dia seguinte, manhã cedo, um comissário do pérfito raptor deixava no castelo uma mensagem para o pobre pai que chorava de dor pela sorte da donzela desaparecida. Nesta mensagem - anónima, claro - o autor denunciava o jovem príncipe que, entretanto, se dirigia ao castelo, ignorando em absoluto o que se passava. Transportas as muralhas, foi imediatamente rodeado pelos homens do governador e posto a ferros numa profunda masmorra. Ou entregavam a donzela desaparecida ou seria decapitado em poucas horas...

Depois de ter protestado a sua inocência e de pôr o governador ao corrente das razões da sua estadia ali, após tão longa viagem, perdidas as esperanças - a hora marcada para a execução aproxima-se - ajoelhou no lejado do cárcere e rogou a Deus dos Céus e da Terra que exercesse o seu infinito poder para livrar a donzela dos perigos que corria e a restituisse sã e salva ao seu velho e amargurado pai. Já o príncipe, algemas nos pulsos e grandes grilhetas de ferro nos tornozelos, ia sendo empurrado para o cadafalso montado num dos pátios do castelo, mas um voz ainda rogou a Deus fervorosamente.

O carrasco ergeu o afiado e terrível cutelo, cuja lâmina brilhou intensamente, e, de súbito, fez-se ouvir um Gavião que de grande altura iniciou um mergulho com rapidez de raio, sobre o condenado e o seu verdugo. Agora, todos os olhares se fixaram no Gavião que voava a pouca altura e em círculos como dando a ententer que queria guiar alguém...

Para o príncipe, aquela ave era a resposta às suas orações, e disso, disso fez saber ao governador que acabou por montar a cavalo, acompanhado dos seus guerreiros, e do príncipe, o príncipe agora já liberto, todos saíram a galope na direcção que o gavião lhes indicava voando a baixa altura, até atingirem um alto cabeço sobre o qual a ave pairou tal como supunham, ali foi surpreendido o pérfido mouro raptor e a sua presa, amarrada e amordaçada, escondidos numa pequena gruta.

Libertada a donzela, castigado - o blog diz que assim é que se faz - exemplarmente o malfeitor - então essas coisas se fazem a uma donzela - todos regressaram felizes ao castelo, onde se efectuou uma grande festa. E que foi feito do gavião Salvador ? Desapareceu ? O príncipe mandou erigir no esconderijo pelo passáro, uma pequena ermida de invocação a S. Salvador em acção de graças. Muitos anos depois diziam antigos que no local hoje denominado Salvador, certo lavrador quando arava um pedaço de chão que ali possuía, desenterrou entre restos de cantaria e uma pedra na qual se via gravado um gavião, voando e de cujo bico pendia uma espécie de corrente.

A povoação primitiva não era aqui no cimo, mas sim num lugar denominado de Vale da Carreira. Ainda se lá vêem restos de antigos muros e velhas habitações arruinadas. A população do local não era grande mas ia aumentando ano após ano. Um certo dia, inesperadamente, chegaram gentes de longe para ali se fixarem. Os de Vale da Carreira, todos aparentados proprietários das ribeiras próximas, e portanto das boas terras de regadio, não permitiram o estabelecimento daqueles novos colonos nas suas terras, contrariados pela forte animosidade encontrada , foram-se dali em busca de outro local. Seriam umas duas ou três famílias acompanhadas por um sacerdote que lhes servia de guia. Algum tempo depois, subiram a um cabeço no cume do qual como únicos seres vivos, encontraram grande número de gaviões que proliferavam à vontade sem humana presença até lá.

O lugar era elevado, varrido de ventos, saudável e como um grande miradouro, donde se avistavam vastos territórios em todas as direcções. Concordaram em ali se fixarem e escusado seria dizê-lo que todos os gaviões fugiram dali, todos, excepto um, que alipermaneceu e viveu até morrer de velhice. Logo no primeiro dia, enquanto o sacerdote e os seus companheiros davam graças a Deus, por até ali os ter protegido e guiado, aquela ave conservou-se mansa e quieta, junto à pedra que, improvisadamente servia de altar. Com o tempo, tornou-se o pássaro companheiro inseparável do sacerdote - colono a quem, segundo a tradição, até ajudava nas suas andanças de caça. Em memória daquela ave quase sacra os moradores daquele novo povoado, chamaram a este "Monte do Gavião" e, muito mais tarde, adoptaram-na como seu emblema...".

De A vila do Gavião e a sua Antiguidade, de António Moutinho Rúbio estudo publicado em O Distrito de Portalegre, de 8 de Março e 5 e 12 de Abril de 1969

publicado por DELFOS às 08:09

É bem conhecida a lenda – narrada primeiramente por Frei Agostinho de Santa Maria no Santuário Mariano e reportada ao tempo de D. João III – do achamento da imagem da Senhora da Peninha por uma jovem pastora muda, por seus pais e por alguns vizinhos.

Miraculosamente descoberta “em huma rotura da penha” nas fragosidades que sobranceiramente assinalam o poderoso promontório da Roca, logo “a tomárão com reverencia, e a trouxerão para a Ermida de São Saturnino, que fica dalli não muito longe, e nella a collocárão com toda a veneração, e reverencia (…).

Mas a Senhora que havia santificado o primeiro lugar, e o havia escolhido, para nelle ser venerada, deixando a Ermida de São Saturnino, se foy a buscar a sua penha. Tres vezes succedeo isto, e julgandose, que (…) a Senhora só aquelle lugar queria, tratárão de lhe fazer hua Ermidinha, ajustada com a probreza daquelles pobres Aldeões” (15, Tomo II, Livro I, Título XVI, p. 55). Assim se teria iniciado, em tempos de D. João III, o culto mariano na ponta terminal da serra de Sintra, nesse finis terrae do extremo ocidental da Roca já anteriormente cristianizado pela erecção no séc. XII de uma ermida dedicada a São Saturnino.

O facto de uma imagem aparecida se “recusar” a ser colocada noutro local que não o do seu achamento é muito comum neste tipo de lendas populares, estando presente em centenas de narrativas e denotando em geral a reivindicação da imagem sagrada por parte do povo, em oposição à hierarquia institucional, ou noutros casos uma história de antigas rivalidades entre povoações. Em ambas as circunstâncias reconhece-se e reivindica-se como divino o local do achamento através de manifestações que denunciam por si mesmas esse carácter sobrenatural, pois que se trata de um objecto inanimado que se apresenta portador de vontade… mesmo contra a vontade da comunidade.

Pierre Sanchis evidenciou que o santo ou a divindade manifestam frequentemente “a vontade de ser de um lugar e de uma comunidade particular, graças às circunstâncias que rodearam a aparição da sua imagem” (14, p. 45); e por isso essa imagem resiste às tentativas de trasladação, regressando repetidamente ao local que escolhera para a sua hierofania, fazendo-se por exemplo demasiadamente pesada para ser trasladada.

Pouco após o povoamento da ilha Terceira dos Açores, nas primeiras décadas de 1500, a Virgem foi vista pairando sobre as águas da Ribeira das Sete (Santa Bárbara), anunciando que ali próximo apareceria uma sua imagem; ao despedir-se, deixou gravada na rocha basáltica a impressão de um pé (pezinho de Nossa Senhora).

A imagem surgiria de facto numa furna na Lapinha, junto ao mar; mas quando as populações a instalaram na igreja paroquial desapareceu repetidamente até que, fazendo-se subitamente pesada, não mais a puderam deslocar do seu local preferido; e aí lhe ergueram uma ermida consagrada à Senhora da Ajuda (3A, p. 126).

Também a imagem do Senhor Jesus do Carvalhal (Óbidos), que se venera num santuário edificado após o terramoto de 1755 sobre as ruínas duma primitiva ermida dedicada a São Pedro de Finis Terra e a que se organizam círios populares, fora descoberta por um pescador no mar de Peniche, a quem dissera “leva-me até poderes”; e quando chegou à ermida de São Pedro tornou-se a imagem tão pesada que não pode prosseguir.

Ainda em data tão recente como 1910 se conta que ao tentarem levar para a igreja paroquial a imagem da Senhora da Boa Morte que o Rei D. José oferecera ao convento do Louriçal (Coimbra) ela se fizera tão pesada que foi necessário espicaçar violentamente os bois que a transportavam.

Noutras ocorrências são animais que descobrem a imagem ou que, transportando-a, se recusam a andar.

A imagem da Senhora da Piedade que se venera na Merceana (Alenquer) foi achada no tronco de uma carvalheira por um boi chamado Marciano, que se afastava da manada e se colocava em adoração frente à árvore; aí foi construída uma ermida em 1305 (15, Tomo II, Livro I, Tít. XXVI, p. 326).

Para Cernache (Coimbra) foi transportada numa mula a imagem trecentista da Senhora dos Milagres, que saíra de Lisboa a caminho de Coimbra; ao chegar àquela povoação, a mula parou, recusando-se a andar, e “por mais diligencias, que se fizerão, a não pudérão mover, a que desse mais hum passo”, conta também Frei Agostinho de Santa Maria.

Em Pinheiro Grande (Chamusca) era uma junta de bois que recusava avançar e se ajoelhava; escavando-se nesse lugar, encontrou-se a imagem de Santa Maria, que ficara soterrada aquando de uma violenta cheia do Tejo no séc. XVI. No santuário barroco da Senhora d’Aires (Viana do Alentejo), cuja primeira edificação remonta ao séc. XVI, diz-se que todas as noites os bois saíam misteriosamente do estábulo para pastar, mas que na manhã seguinte estavam de novo lá dentro, apesar de a porta permanecer fechada; a Virgem manifestou-se em sonhos ao lavrador Martim Vaqueiro e explicou-lhe ser ela quem lhes abria a porta, querendo que ali lhe edificassem um templo.

E também em Leiria, antes de o santuário do Senhor Jesus dos Milagres ter sido edificado, os gados das charnecas vizinhas formavam em círculo ao redor da cruz e do painel pintado erguidos em 1730 no próprio local do milagre concedido ao entrevado Manuel Francisco Maio.

Iniciativa própria e discricionária

A divindade manifesta-se com iniciativa própria e discricionária, misteriosa e incompreensível, não de acordo com as conveniências dos homens; é por essa razão superior que a “santa” foge para o local que mais lhe agrada.

A história é de tal modo comum em todo o País que chega a haver quem dela se “aproveite”: uma lenda recolhida em Caféde (Castelo Branco) afirma que a capela da Senhora de Valverde fora em tempos edificada noutro local; ora, os povos de Juncal e de Freixal do Campo, querendo que uma nova ermida fosse construída mais perto das suas povoações, iam roubar a imagem e colocavam-na “na toca de uma pedra de granito, que ainda hoje se encontra atrás do altar na actual capela”, dizendo que assim indicava a Senhora o seu desejo de ali ficar… (12, p. 10).

Nalgumas situações a imagem da Senhora limita-se a desaparecer temporariamente: em tempos de D. Sancho I, pelo ano de 1185, de um naufrágio ocorrido nas praias da Vagueira (Aveiro) salvou-se uma efígie da Virgem, que se guardou num arbusto próximo; avisado o pároco da Esgueira, visitou este o local, mas não a encontrou; e foi o próprio rei que, por ela avisado através de sonhos em Viseu, ali se deslocou, descobriu a imagem e mandou edificar uma ermida e uma torre de protecção contra os piratas, embora uma outra versão da história afirme que o local da imagem teria sido revelado em sonhos a um lavrador corcunda, que construíra a primitiva igreja (5, p. 48).

Menos frequentemente, a Senhora parece arrepender-se de se ter feito visível e opta por desaparecer definitivamente: conta Frei Agostinho de Santa Maria que em Matacães (Torres Vedras) aparecera pelo ano de 1500 uma sua imagem numa oliveira, desaparecendo quando a população quis levá-la para a igreja de S. Miguel de Torres Vedras; por dez vezes tentou o pároco realizar a trasladação, embora sem êxito, até que finalmente convencida a população lhe edificaram uma capela no lugar do achamento; todavia, a Senhora da Oliveira desapareceu de vez e foram assim obrigados a mandar esculpir uma outra imagem de pedra para colocarem no altar.

Muito raramente, é a própria pedra em que a Senhora se mostra que foge: em Chãos, nos Prazeres de Aljubarrota (Alcobaça), onde a Virgem das Areias apareceu a uma mulher que havia perdido as chaves de casa e receava ser abusada pelo marido, mandou pelos anos de 1630 o bispo de Leiria levar o penedo em que a Senhora se sentara para Aljubarrota, “tendo tudo por patranha, e antojo da mulher”, pois que os devotos “delle raspavaõ, e tiravão alguas areas, com as quaes bebidas saravão das febres, e de outras muytas enfermidades”; tendo o penedo regressado ao seu local próprio, “mandou-o buscar outra vez , (…) e o mandou pôr junto à sua cama aonde dormia”, mas de noite tornou a desaparecer para voltar a Chãos (15, Tomo III, Livro III, Tít. X, p. 314).

Noutras circunstâncias são os materiais de construção que desaparecem ou o conjunto já edificado que surge destruído do dia para a noite, como na lenda da Senhora da Benedita (Alcobaça), datada do séc. XIV/XV: “todas as manhãs apareciam as paredes aluídas e erguidas noutro local (onde está hoje a capela) e aumentadas sempre de mais um cunhal” (6, p. 300).

Aqui chegou a Virgem a matar e a ressuscitar um boi, ou duas vacas segundo outras versões; e para dar indicação segura da sua vontade deixou mesmo “estampadas três pegadas; se bem que a incuria daquelles homens, por não fazerem caso desta maravilha, a deixaram cobrir de terra”, segundo esclarece Frei Agostinho de Santa Maria (15, Tomo II, Livro I, Tít. XVIX, p. 198).

Note-se entre parêntesis que a ressurreição de bovinos tem paralelos noutros casos: também em Brotas (Mora) a Senhora ressuscitou uma vaca, depois de talhar no osso de uma das pernas do animal a sua própria imagem, que na realidade é de marfim.

O modelo inspirador parece ser a lenda medieval de Santa Maria de Guadalupe (Cáceres, Espanha), em que a Virgem ressuscitou não apenas uma vaca encontrada morta pelo pastor Gil Cordero que descobrira a imagem, mas igualmente o filho do guardador de gado. Bernard d’Angers refere-se a animais ressuscitados por Santa Fé no seu santuário francês de Conques (Liber Miracolum sanctae Fidis) e escreve entre 1013-1020: “Por um maravilhoso efeito do soberano poder de Deus, santa Fé ressuscitou animais (…) Leitores, não evidenciem uma extrema surpresa na leitura deste milagre (…) Será portanto inesperado que o Criador, cuja bondade é infinita, testemunhe condescendência relativamente à obra das suas mãos, já que está escrito: Senhor, espalhareis as vossas benfeitorias sobre os homens e os animais?” (10, p. 33).

Casos há em que são relíquias a regressar ao local preferido. Na região de Belver, no concelho de Gavião (Portalegre), ainda hoje o povo conta a história das sagradas recordações que haveriam sido trazidas da Palestina pelos monges hospitalários de São João de Jerusalém, a quem D. Sancho I confiara o encargo de edificar o altaneiro castelo.

As relíquias foram conservadas em 24 relicários abertos num belíssimo retábulo em talha quinhentista na capela de São Brás, no interior do recinto muralhado, oferecido pelo príncipe D. Luís, filho de D. Manuel I.

Diz a lenda popular que teriam sido levadas para Lisboa, mas que logo haviam desaparecido e subido o Tejo até Belver, numa embarcação misteriosamente iluminada e acompanhada por música celestial. Não conseguindo puxar o barco até à margem, a população recorrera aos préstimos do pároco local; organizada uma procissão, viram então a embarcação deslocar-se sozinha, assim recuperando o cofre de madeira, forrado a seda vermelha e com aplicações de prata, que guardava as santas memórias. Transportadas para a igreja matriz, ali se conservam ainda hoje, sendo expostas unicamente no penúltimo domingo de Agosto.

Mencione-se ainda a lenda da fundação do mosteiro cirsterciense de Santa Maria de Alcobaça: de acordo com Frei Bernardo de Brito (2, Livro III, Cap. XXI, p. 169), D. Afonso Henriques determinara primeiramente construí-lo no lugar da Chaqueda ou Chiqueda; porém, durante a noite, desapareceram misteriosamente as “cordas e medidas, que os Monges trazião” para se abrirem os caboucos, indo aparecer no dia seguinte na zona de confluência dos rios Alcoa e Baça onde se vieram a lançar efectivamente as fundações da abadia, “armadas com tam boa ordem e concerto, como se as pusera algu official primo”; “mandando alimpar o sitio de todo genero de mato”, foi o rei o primeiro a iniciar a construção “com hua enxada nas mãos”.

A lenda da fundação do mosteiro, bem como a conquista de Santarém, é minuciosamente contada por aquele historiador alcobacense na sua Crónica de Cister e está narrada nos painéis azulejares setecentistas que forram a Sala dos Reis do convento: num desses painéis descreve-se a demarcação do terreno onde D. Afonso Henriques mandou construir a abadia, repetindo na terra a medição que os anjos haviam feito no céu.

De acordo com a pia lenda, São Bernardo fora avisado em Claraval da vitória de Afonso Henriques em Santarém, em místico transe que passou em “suspiros afervoradissimos, mais do costumado, como aquelle que com os olhos do espiritu estava vedo todo o processo do combate, que se entam começava” (2, Livro III, Cap. XX, p. 166vº).

Também relativamente à edificação do mosteiro de São João de Tarouca, no séc. XII, se referem circunstâncias similares: segundo Frei António Brandão (1, Livro X, Cap. IX, p. 106), o convento teria sido fundado por ordem de São Bernardo que, em “oração ferverosa”, lhe viu aparecer São João Baptista “e o moveo da parte de Deos a mandar Monges de sua casa ao Reyno de Portugal a fundar uma Abbadia, e sem limitar lugar certo, o assegurou, que o Senhor o manifestaria”; os monges de Claraval procuraram um ermitão junto a Lamego, João Cirita, e aí fundaram uma primeira ermida, que devido aos sinais do céu mudaram para a sua localização definitiva: “e fundàraõ hua Ermida, que depoys mudàraõ para o lùgar, onde hoje se vè o Mosteyro de Saõ Joaõ de Tarouca, por occasiaõ de huas luzes que por algum tempo viraõ naquelle sitio”.

Frei Bernardo de Brito (2, Parte I, Livro II, Cap. III, p. 61) especifica melhor esses sinais: “hum resplandor a modo de rayo, que decendo do Ceo, se deteve no ar muy perto da terra, dando claridade a todas as serras e valles em redor”.

Saliente-se, a propósito destes episódios, o acontecido com a edificação por Constantino da nova cidade-capital de Constantinopla ou Nova Roma, entre os anos de 326 e 330 d. C. Descreve o historiador Sozomeno na sua Historia Ecclesiastica (II, 3), redigida entre 440 e 443, que o imperador iniciara a construção da nova capital aos pés de Tróia, no Helesponto, mas que Deus lhe aparecera “de noite e o mandou procurar outro sítio para a cidade.

Conduzido pela mão divina, chegou a Bizâncio na Trácia (…) e aqui desejou construir a sua cidade e torná-la digna do nome de Constantino. Em obediência às ordens de Deus, alargou portanto a cidade até então chamada Bizâncio (…)”. Por seu turno, o historiador Philostorgius na Historia Ecclesiastica, que apenas nos chegou epitomizada por Photius (Livro II, Cap. 9), esclarece que “quando foi marcar o perímetro da cidade caminhou ao longo dele com uma lança na mão”; e quando “os seus servidores pensaram que já tinha medido uma área demasiadamente larga, um deles chegou-se junto dele e perguntou-lhe ‘Até onde, ó Príncipe?’.

O imperador respondeu ‘Até que aquele que vai à minha frente pare’; e por esta resposta claramente manifestou que algum poder dos céus o estava conduzindo e ensinando-lhe o que fazer”.

Normalmente, a Virgem ou o santo limitam-se a evidenciar pelos seus actos o desejo de permanecer no local onde apareceram ou foram achados, vinculando-se assim a essa comunidade.

Por vezes irrita-se com pormenores pouco previsíveis: o São Bento de Cossourado, em Paredes de Coura, voa milagrosamente para um carvalho vizinho sempre que a porta da capela é reconstruída (14, nota 112, p. 223). Mais raro é anunciar por escrito essa vontade, como aconteceu em Ovar: quando os vareiros encontraram a imagem da Senhora da Graça num enorme penedo, nos inícios do séc. XV, depararam aos seus pés com uma inscrição em que se ordenava a edificação de uma capela naquele lugar, prometendo em troca livrar a população de pestes.

As lendas dos sete irmãos e a geomancia
Estas tradições, repito, contribuíam para reforçar a ideia de que eram as entidades sobrenaturais quem escolhia o seu próprio território de culto, mediante uma hierofania independente da vontade dos homens e afirmando assim a sua soberania superior ou demonstração de poder primacial: ao homem não “compete escolher o terreno sacro mas tão somente descobri-lo através de sinais ou revelações superiores e aceitá-lo” (13, p. 166), reconhecê-lo e a ele se vincular através da erecção de uma estrutura de culto.

Na serra de São Macário, a capela a ele dedicada e a capela próxima de Santa Maria Madalena teriam sido destruídas por um incêndio, tendo as populações decidido erguer uma nova ermida comum aos dois santos na Cabeçada; porém, todas as noites as ferramentas desapareciam, sendo encontradas pela manhã junto à primitiva capela do santo, porque Macário não queria deixar de ver os seus seis irmãos (Senhora da Nazaré em Palhais, Santa Ana na Cumeada, Senhora dos Remédios na Sertã, Senhora da Confiança em Pedrógão Pequeno, Senhora da Graça na povoação da Graça e São Neutel em Figueiró dos Vinhos).

As lendas dos “sete irmãos” (ou irmãs) parecem ter o seu protótipo longínquo nos sete irmãos macabeus martirizados com sua mãe (II Macabeus, 7:1-42): o mesmo motivo está por exemplo presente na hagiografia de Santa Felicidade, martirizada no séc. II com os seus sete filhos, ou no martírio dos sete irmãos de Gafsa (Tunísia), no séc. V.

Em Portugal, quando as legiões do imperador Trajano passaram pela zona de Lamego, um dos chefes militares raptou uma jovem no castro de São Domingos, na Queimada (Armamar), cuja honra foi defendida pelos seus sete irmãos; martirizados por degolação, todos têm a sua ermida própria.

Noutros casos, a atribuição do “parentesco” refere-se apenas à proximidade geográfica de várias ermidas, avistáveis num mesmo raio visual, como no já mencionado caso da capela de São Macário e dos seus “irmãos” e “irmãs”.

Também nas proximidades das Portas de Ródão, junto ao penhasco da Beira ou penhasco beirão, existe a cadeira de Nossa Senhora onde ela namorava com São Simão; conhecida sob a invocação de Nossa Senhora do Castelo, era filha de Sant’Ana e irmã das Senhoras dos Remédios (Gardete), da Piedade (Alvaiade), da Alagada (Vila Velha de Ródão), das Dores (Fratel), das Necessidades (Comenda) e do Rosário (Fratel), que “se avistam umas às outras”. Igualmente “a Senhora da Peninha tem sete irmãs, por isso quis ir para o alto do penhasco, porque aí avistava as sete irmãs que são: a Senhora da Atalaia, a Senhora da Pena, a Senhora da Penha de França [Quinta da Arriaga, nos arredores de Almoçageme], Santa Eufémia, Santa Quitéria de Meca [Guia, Cascais] e a Senhora do Cabo” (4, p. 36).

Exemplar é a história que se conta em Rendufe sobre Santo Estêvão, a Senhora da Abadia e a Senhora da Peneda, que ao subirem à serra de Arga escolheram através de uma prática geomântica o local onde cada um deveria ficar, atirando ao ar as suas bengalas.

A de Santo Estêvão caiu no Labrujó, embora o santo tenha mais tarde fugido para o lugar de Lisoiros, em Paredes de Coura, onde lhe construíram uma capela (mas garantindo aos de Labrujó que lhes satisfaria todos os pedidos). A da Senhora da Abadia caiu num monte na freguesia do Bárrio, onde lhe edificaram uma capela e ainda hoje a veneram a 15 de Agosto.

A da Senhora da Peneda foi cair bastante longe, junto a um enorme penedo num dos cumes mais altos de Labrujó; mas neste caso a Senhora, aparentemente insatisfeita com o sítio, voltou a atirar a bengala, acertando então no lugar em que lhe edificaram o santuário da Gavieira, em Arcos de Valdevez, onde em Setembro lhe promovem uma romaria que atrai milhares de festeiros.

As gentes do Labrujó, no entanto, assinalaram o local onde a bengala caíra da primeira vez marcando o penedo com uma cruz pintada a vermelho, precisamente chamada a cruz vermelha. A lenda tem outras modalidades, baseadas na história de Santa Liberata, uma das mais conhecidas do Noroeste Peninsular.

Na sua versão valenciana (17), Liberata nascera em Baiona, no ano de 119, filha do governador romano da Galiza e da Lusitânia. Num único parto, teve seis filhas (que viriam a ser as Senhoras de Mosteiró, do Faro, da Peneda, da Pena, da Bonança e dos Remédios) e um filho (São Tiago). Foi São Tiago que lançou a sua bengala ao ar para determinar o seu destino e o das irmãs: para a Senhora de Mosteiró a bengala caiu em Cerdal, para a do Faro no topo do monte em Ganfei, para a da Peneda na serra do mesmo nome, para a da Pena em Paredes de Coura, para a da Bonança em Vila Praia de Âncora e para a dos Remédios em Sanfins; para o próprio São Tiago, a bengala determinou-lhe Compostela como destino.

O mesmo mecanismo utilizou São Silvestre, segundo uma lenda medieval de Cardielos e Serraleis (Viana do Castelo): lançando o seu cajado para a margem direita do rio Lima, foi ele cair no alto do monte onde se edificou a capela, a cuja construção assistiu sentado na cadeira do santo, um penedo assim chamado por apresentar uma grande cavidade talhada naturalmente.

Também quando a Senhora apareceu em 1603 à jovem muda Catarina em Sandim da Serra (Torre de Moncorvo), indicou-lhe no chão o desenho da capela que queria construída (7, p. 209).

Explicitamente evocadora de práticas geomânticas é a descrição que Diogo Pereira Sotto Mayor nos faz em 1619 da fundação do convento quinhentista de São Bernardo em Portalegre, que o bispo D. Jorge de Melo quisera edificar sobre as ruínas da cidade romana de Ammaia; “mas tomando parecer com alguns físicos e matemáticos, e tomando o clima do sítio e o planeta que sobre ela reina, acharam que era lugar muito doentio e que passariam ali as religiosas muito trabalho” (11, p. 111).

Do mesmo modo teria D. Gualdim Pais edificado em 1160 o castelo templário de Tomar, em substituição da velha fortificação de Ceras, sorteando a respectiva localização por três montes: segundo testemunho de Domingos Paes Roussado na inquirição de 1317 mandada fazer por D. Dinis, “lançadas sortes três vezes caíra a sorte naquele monte onde agora se vê o Castelo de Tomar e que então se acordaram que povoassem naquele monte” (9, p. 175).

Uma tradição com ilustres paralelos

A propósito das Senhoras que fogem para o local que elas próprias escolheram, Manuel Grandra salienta os paralelos com o “episódio da Eneida (II, 172-174), onde se descreve o desagrado e a ira do Paládio de Pérgamo por ter sido retirado do seu templo, ou ao que Varrão (De ling. lat., V, p. 144) refere acerca dos Penates que, quando transportados para Lavínia, voltaram para o seu domicílio original” (8, p. 19).

Na verdade, a estátua de madeira de Pallas Atena (Palladion) manifestou com “prodígios não duvidosos” a sua aversão quando Ulisses e Diomedes a retiraram do seu templo em Tróia, tendo mais tarde, segundo uma de várias tradições, sido levada por Eneias para Roma: diz Vergílio na Eneida que dos olhos despediram-se chispas de fogo, dos membros escorreu suor salgado e por três vezes se levantou sózinha do chão, “brandindo a lança e agitando o hórrido escudo”.

Também os Penates que haviam sido trasladados de Tróia para a cidade de Lavinium por Eneias recusaram mudar-se para Alba Longa quando esta cidade foi por sua vez fundada pelo filho de Eneias, Ascânio, e reapareceram miraculosamente em Lavinium por duas vezes; segundo Dionísio de Halicarnasso (Antiguidades Romanas, II, 67), apesar de as portas do templo de Alba Longa estarem “muito cuidadosamente fechadas e de as paredes do recinto e o tecto do templo não terem sofrido estragos, as estátuas mudaram as suas posições e foram encontradas nos antigos pedestais” em Lavinium.

O acordo prévio da deusa era igualmente essencial relativamente a Cibele: em Roma, aquando do cortejo processional do seu banho (lavatio), que se realizava a 27 de Março, a sua imagem de prata com uma pedra negra a servir de rosto deixava o Palatino em direcção ao Almo, um afluente do Tibre, no qual era mergulhada e lavada com cinza; antes de regressar a Roma, porém, era-lhe pedido o seu consentimento, e só em caso de resposta afirmativa assim se procedia.

Ainda mais explícito é o relatado na Historia Britonum (Cap. LXXIII), redigida circa 830, tradicionalmente atribuída ao monge galês Ennius e que forneceu um contributo fundamental para a formação das lendas relativas ao rei Artur, sendo o primeiro texto que o apresenta como figura histórica: no País de Gales, no cairn de Cabal, podia ver-se a impressão das patas de Cabal, um dos cães da matilha de Artur de Camelot; inúmeros visitantes tentaram levar a pedra, mas só conseguiam conservá-la durante um dia e uma noite, já que que na manhã seguinte ela regressava inevitavelmente ao seu lugar.

Por seu turno, Plínio conta na História Natural (XXXVI, 23) que na cidade de Cyzicus havia uma “pedra fugitiva” (lapis fugitivus) que fora usada pelos Argonautas como âncora, mas porque “repetidamente levantara voo do Prytanaeum, o local assim chamado onde era guardada, foi presa à terra com chumbo”; noutro local (id., 29) afirma: “entre os prodígios que aconteceram, encontro referências feitas a mós de moinho que se moveram por si próprias”.

Saliente-se, por último, que a circunstância de santas imagens terem sido escondidas – e mais tarde achadas – anda normalmente atribuída ao domínio muçulmano da Península, que terá levado a que os cristãos as guardassem em locais isolados para evitarem a sua profanação, especialmente durante as perseguições do omíada Abderramão II no séc. IX e, mais tarde, das dinastias almorávida e almóada.

A mesma determinação haveria sido já tomada anteriormente, aquando da invasão dos alanos, suevos e outros povos bárbaros, nos inícios do séc. V, afirmando a tradição que o arcebispo de Braga mandara esconder todas as relíquias de santos por ocasião do mítico concílio celebrado naquela cidade em 411.

O I Concílio de Braga decorreu de facto entre 561 e 563, presidido por São Martinho de Dume, bispo de Braga; o falso I Concílio, convocado por um inexistente arcebispo Pancraciano e cujas actas foram forjadas no mosteiro de Alcobaça e publicadas por Frei Bernardo de Brito na sua Monarquia Lusitana (3, II Parte, Livro VI, Cap. II, p. 198), referia nomeadamente as relíquias de S. Pedro de Rates, que era necessário acautelar dado que “as gentes barbaras destruem toda Espanha, assolaõ os Templos, e poem à espada os servos de Jesu Christo, profanão as memorias dos Santos, seus ossos, Templos, e sepulturas”.

Teria sido decidido que os bispos regressassem aos seus domínios e que aí escondessem “os corpos dos Santos em lugares decentes, e mandenos hua relação dos luygares e covas onde os depositarem, porque senão venhaõ a esquecer pelo discurso do tempo”.

Contestando de algum modo esta explicação tradicional para o aparecimento de santas imagens, outros investigadores preferem recordar que eram na Idade Média numerosos os eremitas que se retiravam para longe do mundo e que, para se sustentarem, apresentavam aos passantes uma imagem, pedindo-lhes o óbolo; com a sua morte, as imagens teriam ficado ali esquecidas para virem mais tarde a ser encontradas pelos populares.

http://riquita1303.blogspot.com./2010/11/proposito-da-senhora-da-peninha.html

publicado por DELFOS às 03:21
12 de Fevereiro de 2011

"A Safra a Moura é um conjunto de enormes massas graníticas, situada entrre Tolosa e a Ribeira do Sôr, junto à Estrada Nacional n.º 118.

No seu interior, há uma espécie de refúgio, que tudo indica ser habitado, tendo em conta o seu aspecto.

Na realidade, a cobertura fuliginosa das pedras faz concluir que ali o fogo foi várias vezes ateado.

Segundo a lenda, durante as lutas da Reconquista Cristã, foi lá um cavaleiro mouro se refugiou com sua esposa, quando era procurado e perseguido pelos companheiros de armas.

Certa noite, abandonou o acampamento e partiu na companhia da sua inseparável esposa. Deixou então uma carta dirigida ao comandante do exército:

"Conheceis-me bastante bem para concluires que não é o medo da luta que me torna desertor. Nunca receei o confronto com o inimigo. As minhas armas nunca se baixaram, quando o perigo e a mprte mais se avizinhavam. Mas, pensei longamente nas razões invocadas para sustentar esta guerra, sem nunca ter encontrado uma única razão que a justificasse. Sempre ouvi fundamentar esta terrível contenda na incompatibilidade religiosa entre a Cruz e o Crescente. Semelhante justificação não passa de uma falsidade, com o fim de enconbrir os desejos expansionistas dos soberanos que tiranicamente nos governam."

Foram oferecidas quantias vultuosas a quem denunciasse o esconderijo do jovem mourisco.

Muitas pessoas da vizinhança foram largamente interrogadas. Mas ninguém violou o segredo. Embora cheios de fome e sofrendo as maiores carências, todos recusaram o ouro da traição e da denúncia.

O povo foi largamente compensado pela sua dedicação e firmeza. Não havia miséria que a jovem moura não secoresse, não havia sofrimento que ela não aliviasse, graças à enorme fortuna trazida para o seu esconderijo e aos largos conhecimentos de medicina constantemente evidenciados.

O cavaleiro mouro, porém, pouco aparecia. Nas raras vezes que era visto, apresentava sempre uma expressão triste e pouco comunicativa. O prestígio da esposa ainda mais o apagava aos olhos do povo. Muitos duvidavam da sua bondade.

Certo dia, uma pobre viúva, já fraca e curvada por tantos anos de sofrimento e miséria, encheu-se de coragem e foi à Safra implorar o auxílio e protecção da encantadora moura. Logo o seu coração se encheu de tristeza, ao ser recebida pelo marido. Porém, fazendo apelo à coragem, lá desfiou o seu rosário de lamentações. O cavaleiro ouviu-a pacientemente e entrou no interior do seu palácio subterrâneo. Regressou com uma cesta de carvões que ofereceu à pobre mulher.

Ela lá partiu desalentada, maldizendo a sua sorte. Pelo caminho, foi deitando fora bagos de carvão. para se aquecer ainda tinha alguma lenha... Precisava, sim de aquecer o estômago, e para isso não via remédio!...

Quando chegou a casa, dominada pelo desespero, esmagou o último bago de carvão que lhe restava. Porém, qual não foi o seu espanto, quando viu apareceu debaixo dos seus pés uma moeda de ouro, saída do interior daquelas partículas negras!

Imediatamente saiu de casa, trilhou o mesmo caminho, procurando insistentemente os carvões abandonados. Todos tinham desaparecido!...

Junto à Safra, o cavaleiro mouro aguardava a sua chegada. Disse-lhe então:

- Ouve, boa mulher, quando vi a dúvida e a tristeza vincadas no teu rosto, resolvi seguir-te, pois já esperava que deitasses fora os carvões. Aqui os tens novamente. Leva-os contigo e alivia a tua pobreza com essas moedas. Não queiras avalaiar as pessoas pela aparência!

Acredita que, enquanto a minha mulher distribui a comida e combate a doença, sou eu que aqui trabalho de dia e noite, preparando os alimentos e os remédios.

A partir dessa altura, depressa se espalharam as virtudes e as bondades do cavaleiro. O jovem casal todos os dias recebia provas do maior carinho e agradecimento-

A felicidade e a alegria, trazidas pelo casal mourisco, viveram muitos anos entre o povo humilde desta região."

in "PEQUENA MONOGRAFIA DE TOLOSA / ALZIRA MARIA FILIPE LEITÃO"

publicado por DELFOS às 02:18
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